MUDANÇA DE ENDEREÇO

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27

de
fevereiro

Clarice

 

Eu juro que não foi plágio, mas deparei-me com estas frases de Clarice Lispector que dizem exatamente o que eu quis dizer no outro post, sobre literatura:

“[Sobre a escrita]: é uma maldição, mas uma maldição que salva (…) é uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada” (grifos meus).

27

de
fevereiro

Tem alguém aqui??

 

Fora a minha irmã Bibi, tem alguém lendo esta bodega em pleno Carnaval? Acho que não…

27

de
fevereiro

Sobre literatura

 

Muito complicada essa história de blog. Pra começar: se gasta um tempo digitando o texto, tendo dificuldades técnicas em colocá-lo no ar (às vezes o texto some), revisando-o e ainda assim se cometem erros. Há determinados textos em que preciso checar algumas informações.

Escrever é a arte de cortar palavras, dizia Drummond. Ou de escolher as melhores palavras, digo eu. A idéia de um “talento natural”, ou de um "artista nato" é uma invenção puramente romântica, e pouquíssimos talvez sejam os artistas que tenham manifestado "dotes" ou “dons” artísticos já muito cedo. Tudo bem, Mozart compunha aos 6 anos de idade. Mas ele foi um em um milhão. E quem não garante que o fato dele ter sido filho de um cantor não o ajudou a despertar suas habilidades desde muito cedo? Além disso, como bem mostra Norbert Elias em seu "Mozart: sociogênese de um gênio", o reconhecimento de fato de Mozart só viria um tempo depois, pois ele está aprisionado pelas estruturas de sua época - um período onde ainda não existia a figura do músico como um artista independente; ao contrário, os artistas eram funcionários de determinadas cortes. Mas Mozart queria mais. Sabia que era mais. E morreu atormentado com isso (não é à toa que o pau comia entre ele e Salieri, seu Darth Vader). Podem agora objetar, meus três leitores atentos: "a-há! Então se ele tinha a percepção de que era genial, então é porque também tinha consciência de um dom ou de um talento nato!". Não nego que exista um componente de dom. Só acho que ele corresponde a uns 20% do trabalho de um artista. O resto é esforço, rede de relações e sorte (ou acaso, ou destino, ou Deus, ou como preferirem). Drummond dizia que poesia era "10% inspiração e 90% transpiração". Quer dizer: a arte é labuta diária; trabalho de ourives que lapida um diamante. Idéias, então, são pedras brutas que requerem trabalho incessante e doloroso.

Penso sempre também no quesito "dor" envolvido em toda a forma de arte. Ruy Castro, na apresentação do livro Cuca fundida, de Woody Allen, diz que o escritor é alguém que tem um espinho debaixo da unha. Quanto mais escreve, mais sente dor. Bom, isso também é uma concepção romântica: a a do artista genial e louco. Mas, e se eu for apenas louca? Não sei se a dor é necessariamente vital para a arte, mas com certeza é preciso algum tipo de inquietação, uma questão a ser respondida, uma ferida que não cicatriza, algum "espinho que doa". Mas, porque escrever então? Por que simplesmente não existe outra possibilidade. Ou eu não quero que exista.

Será que a arte tem realmente o poder de nos transformar em algo melhor do que nós somos? Escrevendo sou muito melhor do que ao vivo. Mas mesmo assim é sempre muito difícil, pois é muita exposição e nunca dá pra agradar a todos. Sempre acho que algo não ficou muito bem explicado ou que deveria ter dito de outra forma. Será por incompetência minha ou porque a escrita é a arte do indizível? E o indizível, obviamente não se diz. Se cala. Mas tem horas em que não dá. Ou simplesmente não se quer. Mas não é só a escrita que é assim. A vida é cheia de mal entendidos.

Às vezes sou pretensiosa, "dona da verdade"; em outras acho que me deprecio demais. Só que esse medo de errar é apenas mais uma faceta da pretensão. Afinal, por que cargas dágua eu não poderia errar? Só quem se acha um gênio não se dá a oportunidade de errar. Há um poema muito bonito do Fernando Pessoa (que aliás, publicou pouca coisa em vida e o que publicou o fez através de seus heterônimos…teria ele, também, tido medo de errar?) em que ele diz: "Não sou nada. Não posso querer ser nada. Nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Tenho que seguir com a ambição de ser um Dostoiévski ou uma Virgínia Woolf, mas sabendo que nunca serei. Mas a tentativa já terá valido à pena. Por isso vou escrever. Ainda que bobagens. Mesmo que só pra minha irmã e duas ou três amigas. Mesmo achando que o mundo não precisa de mais uma escritora. Mas eu preciso da escrita. Como um andarilho do deserto que enxerga um poço de água no horizonte e corre até ele desesperadamente, sabendo que essa é a sua única salvação - mesmo que ao chegar descubra que se trate apenas de uma miragem.

25

de
fevereiro

[...]

 

Nasceu minha pequena sobrinha. Dois quilos, oitocentos e cinco gramas de puro assombro. Eu vi o parto. Bom lembrar, de vez em quando, que não passsamos de um amontoado de carne, sangue e outras coisas não identificáveis. Espanto diante do mundo que a circunda. Não entende nada. Esfrega os olhinhos, mexe as mãozinhas e chora. Franze muito a testa. Cabelos pretos, pele clara. Mãos e pés grandes. Ficou uma noite na incubadora, pois teve pequenas dificuldades para respirar. Mal nasceu e já experimentou a luta e a dor que é estar viva. Gostaria de lhe dizer que depois melhora, mas não gosto de mentir para crianças. Deixe que ela mesma faça seu próprio caminho. Fez esforço, chorou. Agora apenas repousa, confusa e sonolenta perto de seus pais. Um montinho de carne.

Que reservará o destino pra ela? Gostará, ela, dessa família que a esperou tão ansiosamente? Em meus sonhos delirantes, fico pensando que vou ensiná-la a gostar de ler, de fazer teatrinhos e de ver desenhos animados. Mas pode ser que ela prefira ouvir Babado Novo, se converta à Igreja Adventista do Sétimo Dia e pense "quem é essa tia maluca?!!". E eu terei que aceitar. Pois amar é isso: aceitar as pessoas como elas são e não como gostaríamos que fossem. E realmente aceitar. Não fingir que aceita e esperar que ela mude de idéia.

Vida longa também aos Ávila Andrade Pereira!

 

24

de
fevereiro

“Esse ano não vai ser igual àquele que passou…”

 

Minhas amigas (algumas delas) estão indo passar o Carnaval em Diamantina. Passei um carnaval lá em 2000. Fiquei com um cara chamado Daniel, que fazia doutorado em química na USP. O cara me ganhou fácil com um papo sobre entropia - e eu, que não sabia nada sobre química, achei que ele era o próprio Einstein (não me vem o nome de nenhum químico famoso então vai Einstein, mesmo).

Em 1999 passei o Carnaval em Ilha Grande, em Angra dos Reis. Fomos eu e meus quatro irmãos. Alugamos uma casa. Foi uma experiência bem interessante. As pessoas não acreditavam que pudesse existir uma família de cinco filhos, do mesmo pai e da mesma mãe, e que ainda por cima fossem amigos o suficiente para passarem o Carnaval juntos. Fiquei com um cara chamado Luís, que tocava saxofone no bar de música ao vivo da praça - uma das vantagens daquele carnaval foi não precisar ouvir samba -o que fez com que meus irmãos, sacanas como sempre, o apelidassem de Kenny G. (aquele saxofonista mala).

Me lembro ainda de diversos carnavais que passei em Andrelândia, terra da minha mãe, no sul de Minas. Lá eu aprendi o significado da palavra "amor" e "amizade" - além de "ressaca" e "acho que vou vomitar". O carnaval lá era igual ao de muitas cidades do interior. Primeiro acompanhávamos os blocos nas ruas ou as escolas de samba - na qual saíam os saudosos Seu Haroldo (esse vai merecer um post inteiro qualquer dia desses) e papai, na comissão de frente, além da igualmente saudosa tia Kaká, sempre como destaque, animada como só ela. Nossos amigos também se vestiam de mulher, em dois dias alternados. Nessas ocasiões eles tinham uma pequena amostra do que nós, mulheres, sofríamos com saltos, batons e meias (se bem que o estado alcoolizado deles anestesiava tudo). Depois íamos pro baile no Campestre Clube de Andrelândia. E era baile em que só se tocava marchinha e os sambas-enredo mais conhecidos. Eu e minhas amigas (dentre as quais algumas que vão pra Diamantina esse ano) fizemos sucesso com algumas fantasias: a de punk - embora parecíamos com as Paquitas - e a de diabinhas. Tinha também um fotógrafo que batia sempre "a foto" oficial da turma. No dia seguinte vendia em uma banca montada na pracinha do fórum. As fotos vinham em formato de monóculo (aquelas paradinhas que a gente olha num buraco e só vê o negativo). Tenho várias. O problema é que ele também às vezes registrava momentos constrangedores, como beijos proibidos e bebuns desmaiados. Daí o dia seguinte era um tal de acordar e correr pra barraquinha pra ver se você havia sido flagrado em algum momento constrangedor - e caso tenha, eliminar a prova do crime com rapidez e eficiência. Ao sairmos do baile, não raro com a banda tocando pelo asfalto (pois o clube ficava na saída da cidade) e a gente atrás,  íamos pra casa do Gustavo, onde a sua mãe, Lilian, gentilmente nos oferecia uma canja reconstrutora da fauna e flora estomacal (mais fauna do que flora; praticamente uma selva, eu diria), feita pela queridíssima Dona Célia, avó do Alex. Ali botávamos as fofocas da noite em dia, tomávamos a saideira (ou a primeira do dia), dávamos o último beijo (ou a última tentativa) e íamos pra casa exaustos porém felizes. Gustavo sempre levava um séquito de amiguinhos petropolitanos que como bons habitantes dessa cidade se sentiam sempre os descendentes da realeza: loiros, lindos e esnobes, sempre me ignorando na minha condição de plebe ignária.

Esse ano vou passar o Carnaval em Volta Redonda. Vou ver o nascimento da minha primeira sobrinha. Meus amigos dizem que "eu já não sou mais a mesma" (escuto essa frase há, pelo menos, uns dez anos, o que me faz pensar se "eu não sou mais a mesma" ou "agora é que eu sou eu mesma") ou que estou desanimada. Não acho. Apenas mudei o foco dos meus interesses. O que não quer dizer que eles não possam mudar novamente ano que vem. Hoje olho essas imagens do passado como se fossem ecos de outra vida, como muitas lembranças. Mas sei que elas também fazem parte do que eu sou e algum dia também vou olhar pro carnaval desse ano como se fossem fragmentos de outra existência. E que ninguém estranhe se eu resolver sair no Salgueiro no ano que vem.

Fico pensando em todos esses amores de carnaval que só duram quatro dias - e nos amores de não-carnaval que duram quatro anos - e pra onde eles vão quando acabam. Acho que não se vão de fato. Apenas mudam de prateleira dentro do coração. Sai de "amor" e entra em "amizade". Ou de "amor" pra "indiferença". Arquivos mortos. E há ainda aqueles "cold cases": casos não acabados à espera de um detetive que os solucione. Jogados em um canto escuro, cheios de bolor ou em lembranças vivas; estão todos lá, ainda que resignificados. Simplesmente se apertam daqui e dali quando outros sentimentos chegam. O coração é um músculo elástico e que usa Rexona.

22

de
fevereiro

Vida longa aos Pereiras!

 

Minha prima Cláudia, antropóloga (você também resolveu renegar o passado de publicitária? Rsrsrs…eu renego o meu de jornalista. Quer dizer, nem posso renegar algo que nunca fui), acabou de me mandar o seu livro sobre os Pereiras. Por enquanto é uma versão caseira, que só circula entre a família. Pereiras somos nós, a nossa família. A minha e a dela por parte de nossos pais - que são irmãos; o dela, aliás, meu padrinho. O que nos transforma em material literário é a enorme capacidade que temos em dar foras, cometer gafes: tombos, mancadas, coisas que fazem querer enfiarmos a cara em um buraco. Em suma: de dar pereiradas. Cláudia, utilizando uma etnografia coerente com o objeto em questão (método da antropologia que consiste no trabalho de campo para a análise de algum fenômeno cultural) estabelece dois tipos de pereirada: a com ruído (quando algo se quebra ou envolve desastre físico) ou a silenciosa (gafes em geral; quando se diz algo no momento errado). Nas palavras da própria: "pereirada não é apenas um ato que não deu certo, mas sim um ato que não deu certo (1) precedido por um esquecimento, desatenção ou descuido, (2) feito sem intenção e (3) sucedido por um grito de "é pereira!" ou pelo testemunho confessional do ato" - o que, segundo Cláudia, é uma espécie de código de honra entre os pereiras. Pereira que é Pereira comete gafe e conta.

Tem cada caso hilário, como o do meu tio Roberto entrando atrás num carro de quatro portas (quando isso ainda era novidade) e perguntando onde está o volante; tia Ivone tentando ligar a TV apertando o celular; do meu pai entrando gritando "ai, ai, ai Dona Cegonha" (um grito de guerra da família, longa história…) em um apartamento vizinho ao da minha avó; meu pai levando uma barra de sabão pra escola confundido com o lanche (que não era frequente na sua infância, devido às dificuldades financeiras da família de 13 filhos); enfim, são histórias realmente inacreditáveis que eu só acredito porque eu presenciei várias. A minha predileta é a da Patrícia (outra prima) tentando se segurar no metrô, agarrando o que ela pensou ser a barra de ferro. Na primeira freada a "barra" se quebra. Era uma vela de um cara que estava pagando uma promessa e cujo sacrifício consistia em reproduzir uma vela do tamanho dele. Essa, como muitas outras, não está no livro.

Ela fez o livro como se fosse um dicionário, com vários verbetes e pereiradas ligadas a cada um deles. Realmente ficou um trabalho muito interessante para Pereiras e não-Pereiras - pois pereirice pega por contágio.

Li e chorei - algumas horas de rir, outras de saudades de pessoas, como o meu pai e minha avó, que já se foram. Penso que pra mim foi difícil apreender (de apreensão, mesmo e não de compreensão) o real significado dessa família. E ainda é. Criança muito tímida como sempre fui (e ainda sou. Tanto tímida quanto criança) não entendia muito aqueles tios e tias barulhentos e estabanados que eu via tão pouco. Em comum apenas o fato de serem irmãos do meu queridíssimo pai. Mas sempre fui muito mais mineira que carioca e sempre me sentia meio peixe fora dágua nas reuniões; uma caipira na cidade grande, olhando minhas primas que sempre pareciam mais modernas que eu, dentre elas a Cláudia.

Ainda hoje é bastante difícil pra mim ser leve como os Pereiras. Carrego "o peso do mundo sob meus ombros", como diria Drummond, como parte da minha herança mineira, encrostada em casarões colonais e montanhas azuis. Mas que me deram muitas outras qualidades, das quais me orgulho  - o gosto pelas letras, pela retórica, pelos "causos"; pelo cultivo das tradições; uma certa desconfiança, um certo ceticismo; um senso de observação apurado; além do gosto pela cachaça. Meu primo Júlio César, por parte de mãe, também mineiro e grande poeta, bem define essa mineirice em todas as suas poesias (em breve espero poder divulgá-las aqui). São coisas que nos ligam as nossas raízes, amigos, família…

Então cresci a partir dessas duas tradições muito conflitantes e que, bem dosadas, seriam o tempero ideal. Mas ainda estou longe de encontrar o ponto dessa mistura. Assim como meu pai que foi "amolecendo" com o passar dos anos - de figura dura e austera com os irmãos e filhos mais velhos, transformou-se em um pai brincalhão que contava histórias do Popeye pra eu dormir e fazia teatrinhos no meu berço - quem sabe eu ainda tenha conserto.

Finalizo mais uma vez com as palavras da Cláudia:

"Que as pereiradas ensinem, portanto, que a vida não é feita só de acertos. Que os maiores prazeres estão em coisas bobas, que nos fazem rir. Que as mágoas podem ser curadas com lembranças de um passado bom"

Isso é o mais importante em uma família. Esquecer as tristezas, brigas e só guardar o essencial.

Muito difícil encontrar o tom. Em tudo na vida.

Várias músicas representam meu pai. "As rosas não falam", do Cartola; "a volta do boêmio", do Nelson Gonçalves… Essas ele tocava no violão e gostava muito. Mas pra mim a música que mais lembra meu pai - e que eu acho a música mais bonita do mundo, desde que ouvi pela primeira vez quando era criança - é "Cheek to cheek", do Sinatra. A letra diz: "Heaven. I’m in heaven. And my heart beats so that I can hardly speak. And I seem to find the hapiness I seek". (Vele a pena baixar em MP3, de preferência cantada pela Sarah Vaughan e Louis Armstrong). Me lembro de nossas sessões da tarde (na época em que a sessão da tarde passava filme do Frank Sinatra) ou madrugadas vendo filmes. E ele me explicando quem eram os atores… Mas o melhor sempre foi assitir as comédias do Jerry Lewis e Os Trapalhões (nos anos 80). Tardes de gargalhadas ecoam ainda em algum universo paralelo.

 

22

de
fevereiro

As tiranias da intimidade do orkut

 

Hoje quero falar sobre o orkut. Como vários de vocês sabem, cometi um orkuticídio há quase um ano atrás. Cheguei a ter cem amiguinhos, várias comunidades - algumas, inclusive, criadas por mim - me divertia a valer, perdia horas do meu precioso tempo entrando em discussões. Me meti em algumas confusões que me desgastaram bastante e o fato é que resolvi sair. E depois que saí me senti absurdamente livre e me dei conta da grande perda de tempo que é o orkut.

O orkut foi criado por canadenses com o intuito de mapear gostos das pessoas e assim poderem vender seus produtos através de spams-mala que lotam nossas caixas postais. Acontece que o único lugar onde o orkut pegou foi o Brasil. Mais de 80% dos usuários do orkut são brasileiros - isso sem contar aqueles que marcam "Tonga" ou "Afeganistão" só de sacanagem.

Não vou entrar em questões do tipo se os brasileiros são mais exibidos que outros povos, pois não quero falar merda (mais do que já falo). O que eu quero dizer é que eu acho que a galera tá perdendo a noção. Apesar de não ter orkut, hoje em dia é impossível não escutar alguma conversa - e, não raro, alguma confusão - de alguém, envolvendo o orkut. E eu fico chocada com certas coisas. Por exemplo, eu tenho um amigo que faz terapia. Daí esses dias ele tava conversando com o analista dele pelo orkut!! Tipo, o analista é amigo dele!! Será que eu tô maluca ou isso não extrapola a ética profissional?? Outra coisa: assuntos amorosos. Acho impressionante as pessoas saírem fazendo declarações de amor pra quem conhecem há três meses. E ainda: namorados que vasculham orkut um do outro e ficam "quem é fulana de tal?". Tenho uma amiga que vasculha a página da ex do atual dela (mas que foi ex dele há 10 anos atrás). Masoquismo virtual. Ah!!  A garota que subiu ao palco no show do U2 já virou uma celebridade no orkut e tem mais de 60.000 scraps!!! (Aí, alunos, já dei várias idéias de monografias).

Ah, mas é legal, a gente encontra pessoas que não vê há anos. Isso é bacana. Mas será que compensa todo o resto? Será que não é mais fácil jogar o nome da pessoa no google ou apelar pra boa e velha lista telefônica? Ou ligar pra outros amigos e outras pessoas em comum? Ou criar blogs (como este!) ou listas de discussão? Minha implicância é contra o orkut especificamente. Não tô advogando que "as novas tecnologias esfriam as relações". Amo as novas tecnologias. Sou viciada em computador, celular e todas as novidades. Consegui achar um amigo meu de anos atrás pelo orkut - que tinha se mudado, tava com outro telefone etc.  Só tô querendo dizer que acho que os malefícios são maiores que os benefícios. É igual droga. É legal? Claro que é! Mas é muito arriscado se você não souber usar. E tem muita gente que acha que sabe, mas não sabe.

Outra coisa que odeio em orkut: pessoas engraçadinhas que fazem perfis falsos. Pô, não quer brincar, não chama pro play! Num guenta, bebe leite! Aí virão os pós-modernos de plantão dizer que é justamente a possibilidade de criar identidades múltiplas, não-eus num universo fragmentado. Hã-hãn…ai que sono.

Queria falar de um amigo meu chamado Richard Sennet. Não, ele não tá no orkut. Ele escreveu um livro chamado "O declínio do homem público. As tiranias da intimidade". A edição original é de 1974 - bem antes do orkut. A tese principal do cara é a seguinte: a valorização da vida particular das pessoas é uma invenção recente na história da humanidade. Vem com a ascensão da burguesia como classe dominante (a queda do Antigo Regime). E isso ocorre também em função da dessacralização e do esvaziamento dos espaços públicos. Da Ágora grega (tipo uma praça onde os gregos faziam compras e votavam) até a Cidade, passando pela Igreja e por instituições como o Teatro e tudo mais que envolva a noção de vida em comunidade. Não é que essas coisas não existam mais, mas existem em um sentido muito diverso da sua origem. São, hoje, expressões da individualidade. Os cafés do século XIX são lugares para se estar "sozinho na multidão", como atesta a maioria dos quadros dos impressionistas, como este do Degas:

Ou este outro do Renoir

Em outro sentido, mas dizendo, a meu ver, coisas parecidas é o que o Ulrich Beck chama de "instituições zumbi" ou "categorias zumbi"- e que Bauman retoma no "Modernidade líquida", lembram aluninhos queridos? - a Escola, a Política, a Família, a Religião…todas essas coisas perderam sua força e sentido, por isso zumbi: estão meio vivas, meio mortas (hã?hã? Pegaram?). Resultado: as pessoas começam a privilegiar em demasia a vida privada. Daí o interesse sobre a vida das celebridades, revistas de fofoca etc. E aí entra o orkut.

O grande barato do orkut não é achar pessoas. É poder construir nossa identidade a nosso bel prazer. Muitas vezes, (a maioria) as pessoas colocam como gostariam de ser e não como são (ainda que possamos entrar em uma discussão filosófica sobre quem realmente se conhece e o que é o autoconhecimento e bla-bla-bla). Pra citar meu amigo Sennet: "originou-se uma confusão entre vida pública e vida íntima: as pessoas tratam em termos de sentimentos pessoais os assuntos públicos, que somente poderiam ser adequadamente tratados por meio de códigos de significação impessoal". E a recíproca também é verdadeira. Tratam em termos públicos assuntos privados. E aí é que "comprica". Perde-se a medida. E vêm as confusões.

E o que eu faço neste blog a não ser projetar minha identidade nos meus textos que serão publicizados por uma ferramenta que me joga a milhas de distância? Quer dizer, estou entrando em contradição! Sou uma fraude (minha faceta Pink suplantando a Cérebro; Mr Hyde sobre Dr Jekyll)! Céus…

Bom, não sei qual é saída. E se é preciso procurar por uma. Acabar com o orkut? Não. Não se acaba com a doença acabando com o sintoma, mas com a causa. É possível isso? Não creio. Enfim, só ando muito confusa e resolvi dividir essa confusão com vocês. Esse é o problema da época em que vivemos. É a tal da dialética da modernidade. Vivemos em um mundo onde tudo que é sólido desmancha no ar, como diz meu amigo Marx (e eu tô fudida porque essa é basicamente a fundamentação da minha tese! A dialética do esclarecimento, em termos frankfurtianos). Mas isso, por mais paradoxal que pareça, não é ruim. Encarar a destruição como parte constituinte da vida é o caminho. Falar é fácil…difícil é, com a nossa mentalidade cartesiana, não querer que 2 + 2 dêem sempre 4. Mas na maior parte do tempo dá 5. E como diz um amigo meu, o Betão: "ninguém me avisaram" disso.

22

de
fevereiro

Das banalidades da vida

 

Estava eu, hoje, na rua, aqui no Rio, quando caiu um toró. Peguei um táxi. Entrei e mandei aquele típico comentário: "que chuva, hein?". O motorista respondeu: "é a chuva, minha senhora. Ela não tem culpa. A gente é que tem que se conformar, ela vem quando tem de vir". Tentei melhorar a situação: "eu até gosto de chuva, mas assim de repente…". Sem sucesso. O motorista mandou: "não, desde cedo eu sabia que ia chover, mas mesmo assim eu saí de casa". Eu na minha faceta mais Pollyana: "mas a chuva é boa pros taxistas, né?". Sem sucesso outra vez. "Não, minha senhora, engano seu. Já estou indo pra casa". Quase sem paciência me deu vontade de perguntar: "então por que o senhor saiu, se já sabia que ia chover e que não ia dar movimento???!!!". Aí ele olhou pro retrovisor, seus olhos cruzaram com os meus e ele disparou: "Antigamente até dava movimento em dias de chuva. Hoje não. Tudo mudou. Tudo. E pra pior".

Passei o resto da viagem em silêncio.

É como diz aquele famoso filósofo pré-socrático: vai ser do contra assim lá na casa do caralho!

21

de
fevereiro

Dá-lhe Voltão!!

 

A garota que subiu ao palco no show do U2 é de Volta Redonda! Yeesssss…mais um motivo para nos afirmarmos como os judeus do Vale do Paraíba! Estamos presentes em todo o mundo!!

21

de
fevereiro

Quero um Bono Vox pra chamar de meu!

 

Hoje me peguei apaixonada. Descobri que amo o Bono Vox. Nossa relação era assim, digamos, fria. Já havia reparado nele, claro, mas continuávamos como dois estranhos. Até tenho bastante coisa do U2 baixada no meu computador. Mas nosso namoro não tinha deslanchado. Tudo mudou depois do show de ontem - que só vi pela televisão. Também vi o dos Stones pela TV. Tiro meu chapéu pro Mick Jagger, pela sua atitude, disposição física etc. Acho que ele realmente encarna o velho triângulo "sexo, drogas e rock and roll" como ninguém. Mas descobri que meu posptar do coração é o Bono Vox. Não estou querendo dizer que ele é melhor do que o Mick. Mesmo porque são completamente diferentes. Mas eu estou no meu "momento-Bono".

Os caras fizeram um show de mais de duas horas, sempre simpáticos, cantando "ai, ai, ai, ai…está chegando a hora!" e falando frases em português. Teve a clássica cena de pegar uma garota na platéia pra cantar "With or without you" - o que em tempos de celebridades instantâneas pode levá-la a ter um programa de entrevistas só dela e/ou posar nua pra Palyboy - gritos de "Brasil hexacampeão" da parte de Bono, imagens de Ronaldo; em outro momento de Lula e de Bush - o que, convenhamos, veio bem a calhar, pois não deu pra saber se a vaia era pro Bush ou pro Lula, mas acho que o simples fato de terem colocado os dois juntos já diz muito - efeitos visuais maravilhosos de pétalas caindo, mas não é sobre nada disso que eu quero falar. Quero falar sobre o que me dei conta sobre mim, sobre o Bono e sobre o mundo.

O Bono é o popstar mais anti-popstar do mundo. É o bom moço. É o cara que vai ao Fórum Econômico de Davos; que encontra o Lula e que defende que os países ricos perdoem a dívida externa dos mais pobres. Católico fervoroso, sempre teve certa simpatia pelo IRA (o grupo terrorista, não a banda). O Exército Republicano Irlandês (IRA) é um grupo de guerrilha católica que prega a independência da Irlanda do Norte (maioria protestante, minoria católica) em relação à Inglaterra e a sua unificação com a Irlanda (maioria católica, minoria protestante) que se tornou independente em 1919. Em outros termos: imagine que você é flamenguista, mora no Rio de Janeiro e de repente um grupo quisesse te obrigar a torcer pro Atlético-MG! (povo da História: podem me corrigir, mas me perdoem as metáforas esdrúxulas!). Recentemente o IRA anunciou o fim da sua luta armada. Agora querem realizar as discussões de forma democrática e em paz, através do seu braço político, o Sinn Fein. (Bom, o assunto é bem mais complicado do que isso, mas foi só pra dar uma situada). E o que tudo isso tem a ver com o U2? Acho que muitos sabem da história, mas não custa relembrar: no dia 30 de janeiro de 1972, um domingo, o governo britânico assassinou covardemente 14 manifestantes católicos que protestavam pacificamente na cidade de Derry, na Irlanda do Norte. O episódio ficou conhecido como o "Domingo Sangrento"  (Pra saberem mais: http://www.bloodysundaytrust.org). Bono escreveu "Sunday bloody sunday" sobre este acontecimento. E grande parte das letras do U2 são influenciadas pela sua etnia e religião.

Me dei conta de que eu preciso de mais Bono Voxes na minha vida. Em tempos onde uma onda pós moderna proclama a pluralidade de culturas ou, em outra frente, fundamentalismos varrem o mundo, um cara que consegue falar de valores universais, sem perder sua identidade irlandesa merece, no mínimo, respeito. São coisas que pra muita gente podem ser consideradas piegas - a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão apareceu num telão, por exemplo - mas que não custam serem relembradas, ainda mais na boca de Bono. Tudo bem, ele ganha milhões com isso. Mas outros popstars simplesmente não se importam. Ele também poderia não se importar e vender milhões. Mas o caso é que, pra mim, importa o fato dele se importar. Ou talvez sejam seus belos olhos que estão me cegando.

Bono consegue mesclar com maestria o tal do "eu lírico" e a crítica social em canções que são como uma lufada de ar fresco. Um tirar-os-sapatos-apertados depois de um dia de trabalho. É ter seu cão te esperando na porta de casa, balançando o rabo e mais uma infinidade de metáforas que envolvam simplicidade, conforto e uma pequena dose de obviedade. Suas canções de amor estão entre as mais lindas do mundo. E não são apenas sobre aquele amor romântico. Falam sobre um amor possível, com dificuldades, tropeços, mas que segue adiante. Falam de coisas simples: o cara não pode viver "com ou sem" a mulher! Tipo: alô!! Decide, mulher! O mesmo ocorre em letras como "Stuck in a moment": You’ve got to get yourself together. You’ve got stuck in a moment (…) don’t say that latter you be better. Algo como: dê a volta por cima; se levante, você está preso num momento. Não diga que vai ficar melhor depois. E o som é o bom e velho rock and roll. Só que em tempos onde escândalos vendem, filhos bastardos vendem e os velhos ídolos que costumavam comer morcegos no palco fazem reality-shows na MTV, cabe a redefinição do que é ser um ídolo de rock.

Eu gosto até mesmo das canções religiosas. Mais uma vez isso se expressa como uma característica contracultural, ainda mais em um contexto como o dele, em que ser católico representa ser contra o domínio inglês.

Comentário fútil: o que é aquele baterista? Existe alguém mais lindo?

Mas o que me deixa realmente bolada com essa figura fascinante pela sua suposta caretice é o fato de que ele é casado com a mesma mulher há vinte anos. Uma antiga namorada do colégio. Em tempos de amores líquidos o cara que pode comer geral continua com a mesma mulher do colégio e indo à missa todos os domingos!! Isso é muito transgressor para um popstar. É por essas e outras razões, não publicáveis, que eu resolvi me render totalmente. Quero um Bono Vox pra mim! But I’m still haven’t found what I’m looking for…

 

Queria agradecer a todas as pessoas queridas que leram meu blog - algumas que não vejo há tempos! - aos posts e e-mails recebidos. Agradeço em particular a minha amiga Pat, figura rara, pela inteligência ímpar e generosidade idem e a sua paixão psicótica pela língua portuguesa que possibilitou algumas correções neste texto (não adianta, eu odeio crase! Sei as regras, mas as exceções me matam). Isso não significa que ela seja responsável pelas enventuais batatas que passarem.

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