Hoje quero falar sobre o orkut. Como vários de vocês sabem, cometi um orkuticídio há quase um ano atrás. Cheguei a ter cem amiguinhos, várias comunidades - algumas, inclusive, criadas por mim - me divertia a valer, perdia horas do meu precioso tempo entrando em discussões. Me meti em algumas confusões que me desgastaram bastante e o fato é que resolvi sair. E depois que saí me senti absurdamente livre e me dei conta da grande perda de tempo que é o orkut.
O orkut foi criado por canadenses com o intuito de mapear gostos das pessoas e assim poderem vender seus produtos através de spams-mala que lotam nossas caixas postais. Acontece que o único lugar onde o orkut pegou foi o Brasil. Mais de 80% dos usuários do orkut são brasileiros - isso sem contar aqueles que marcam "Tonga" ou "Afeganistão" só de sacanagem.
Não vou entrar em questões do tipo se os brasileiros são mais exibidos que outros povos, pois não quero falar merda (mais do que já falo). O que eu quero dizer é que eu acho que a galera tá perdendo a noção. Apesar de não ter orkut, hoje em dia é impossível não escutar alguma conversa - e, não raro, alguma confusão - de alguém, envolvendo o orkut. E eu fico chocada com certas coisas. Por exemplo, eu tenho um amigo que faz terapia. Daí esses dias ele tava conversando com o analista dele pelo orkut!! Tipo, o analista é amigo dele!! Será que eu tô maluca ou isso não extrapola a ética profissional?? Outra coisa: assuntos amorosos. Acho impressionante as pessoas saírem fazendo declarações de amor pra quem conhecem há três meses. E ainda: namorados que vasculham orkut um do outro e ficam "quem é fulana de tal?". Tenho uma amiga que vasculha a página da ex do atual dela (mas que foi ex dele há 10 anos atrás). Masoquismo virtual. Ah!! A garota que subiu ao palco no show do U2 já virou uma celebridade no orkut e tem mais de 60.000 scraps!!! (Aí, alunos, já dei várias idéias de monografias).
Ah, mas é legal, a gente encontra pessoas que não vê há anos. Isso é bacana. Mas será que compensa todo o resto? Será que não é mais fácil jogar o nome da pessoa no google ou apelar pra boa e velha lista telefônica? Ou ligar pra outros amigos e outras pessoas em comum? Ou criar blogs (como este!) ou listas de discussão? Minha implicância é contra o orkut especificamente. Não tô advogando que "as novas tecnologias esfriam as relações". Amo as novas tecnologias. Sou viciada em computador, celular e todas as novidades. Consegui achar um amigo meu de anos atrás pelo orkut - que tinha se mudado, tava com outro telefone etc. Só tô querendo dizer que acho que os malefícios são maiores que os benefícios. É igual droga. É legal? Claro que é! Mas é muito arriscado se você não souber usar. E tem muita gente que acha que sabe, mas não sabe.
Outra coisa que odeio em orkut: pessoas engraçadinhas que fazem perfis falsos. Pô, não quer brincar, não chama pro play! Num guenta, bebe leite! Aí virão os pós-modernos de plantão dizer que é justamente a possibilidade de criar identidades múltiplas, não-eus num universo fragmentado. Hã-hãn…ai que sono.
Queria falar de um amigo meu chamado Richard Sennet. Não, ele não tá no orkut. Ele escreveu um livro chamado "O declínio do homem público. As tiranias da intimidade". A edição original é de 1974 - bem antes do orkut. A tese principal do cara é a seguinte: a valorização da vida particular das pessoas é uma invenção recente na história da humanidade. Vem com a ascensão da burguesia como classe dominante (a queda do Antigo Regime). E isso ocorre também em função da dessacralização e do esvaziamento dos espaços públicos. Da Ágora grega (tipo uma praça onde os gregos faziam compras e votavam) até a Cidade, passando pela Igreja e por instituições como o Teatro e tudo mais que envolva a noção de vida em comunidade. Não é que essas coisas não existam mais, mas existem em um sentido muito diverso da sua origem. São, hoje, expressões da individualidade. Os cafés do século XIX são lugares para se estar "sozinho na multidão", como atesta a maioria dos quadros dos impressionistas, como este do Degas:
Ou este outro do Renoir
Em outro sentido, mas dizendo, a meu ver, coisas parecidas é o que o Ulrich Beck chama de "instituições zumbi" ou "categorias zumbi"- e que Bauman retoma no "Modernidade líquida", lembram aluninhos queridos? - a Escola, a Política, a Família, a Religião…todas essas coisas perderam sua força e sentido, por isso zumbi: estão meio vivas, meio mortas (hã?hã? Pegaram?). Resultado: as pessoas começam a privilegiar em demasia a vida privada. Daí o interesse sobre a vida das celebridades, revistas de fofoca etc. E aí entra o orkut.
O grande barato do orkut não é achar pessoas. É poder construir nossa identidade a nosso bel prazer. Muitas vezes, (a maioria) as pessoas colocam como gostariam de ser e não como são (ainda que possamos entrar em uma discussão filosófica sobre quem realmente se conhece e o que é o autoconhecimento e bla-bla-bla). Pra citar meu amigo Sennet: "originou-se uma confusão entre vida pública e vida íntima: as pessoas tratam em termos de sentimentos pessoais os assuntos públicos, que somente poderiam ser adequadamente tratados por meio de códigos de significação impessoal". E a recíproca também é verdadeira. Tratam em termos públicos assuntos privados. E aí é que "comprica". Perde-se a medida. E vêm as confusões.
E o que eu faço neste blog a não ser projetar minha identidade nos meus textos que serão publicizados por uma ferramenta que me joga a milhas de distância? Quer dizer, estou entrando em contradição! Sou uma fraude (minha faceta Pink suplantando a Cérebro; Mr Hyde sobre Dr Jekyll)! Céus…
Bom, não sei qual é saída. E se é preciso procurar por uma. Acabar com o orkut? Não. Não se acaba com a doença acabando com o sintoma, mas com a causa. É possível isso? Não creio. Enfim, só ando muito confusa e resolvi dividir essa confusão com vocês. Esse é o problema da época em que vivemos. É a tal da dialética da modernidade. Vivemos em um mundo onde tudo que é sólido desmancha no ar, como diz meu amigo Marx (e eu tô fudida porque essa é basicamente a fundamentação da minha tese! A dialética do esclarecimento, em termos frankfurtianos). Mas isso, por mais paradoxal que pareça, não é ruim. Encarar a destruição como parte constituinte da vida é o caminho. Falar é fácil…difícil é, com a nossa mentalidade cartesiana, não querer que 2 + 2 dêem sempre 4. Mas na maior parte do tempo dá 5. E como diz um amigo meu, o Betão: "ninguém me avisaram" disso.