Tenho conversado com muitas pessoas a respeito da falta de perspectivas. Pessoas diferentes, por motivos diferentes, de idades e profissões diferentes. Pessoas que, simplesmente por raciocinarem, de repente pararam e se perguntaram: e agora?
Respostas fáceis não me interessam. Viver a vida simplesmente às vezes não basta. Hoje não tenho nada a dizer a ninguém. Será que algum dia tive? Apenas escrevo. E descrevo. Pessoas, a mim mesmo e ao mundo a minha volta.
Queria dizer tanta coisa pra tanta gente…mas tudo já perdeu o sentido. As pessoas e as palavras. Simplesmente, de repente…nada importa. Apenas esse instante. Essas palavras.
Escrevo num jorro absurdo de palavras sem saber sequer se publicarei isso em algum lugar. Mas o pior é que a fantasia de ser lido nunca deixa quem quer escrever. As palavras brotam ininterruptamente e eu deixo. O que eu queria dizer sobre as pessoas talvez se traduza em mim mesma. E eu não sei o que quis dizer com essa frase.

Ontem assisti “Capote”, filme que concorreu ao Oscar e deu o prêmio de melhor ator ao protagonista. O filme fala sobre o escritor Truman Capote, “responsável” pela criação do chamado “new jornalism” norte-americano, caracterizado por ser um tipo de jornalismo mais literário, devido ao seu não compromisso com descrições neutras e imparciais. Ele, ao lado de Tom Wolf e outros jornalistas da década de 60, são tidos como grandes alavancas desse estilo de jornalismo que andava esquecido desde Balzac, Flaubert, Victor Hugo…
Esse estilo se contrapõe, por exemplo, ao jornalismo que é feito na maioria das TVs e jornais do mundo todo, onde os jornalistas acreditam em uma verdade única e inabalável dos fatos e que é possível reproduzi-la fidedignamente. Nelson Rodrigues genialmente apelidava estes últimos de “os idiotas da objetividade”. Por causa dos idiotas da objetividade eu desisti do jornalismo. Por causa de Capote e Nelson Rodrigues eu quis ser jornalista (embora não soubesse quem era Truman Capote aos 17 anos). Quis ser jornalista por acreditar que isso me levaria a literatura. Ao mesmo tempo acho que a literatura me trouxe de volta ao jornalismo através dessas crônicas neste blog…(hoje estou muito reticente…).
Voltando a Capote. O filme conta o processo de escrita do livro “A sangue frio”, que retrata dois homens que matam uma família no Alabama. Capote fica completamente fascinado por um dos personagens, criança problemática que cresce junto a um ambiente igualmente problemático – assim como o próprio Capote. Uma das frases ditas pelo jornalista me impressionou deveras: “Nós dois fomos criados dentro da mesma casa. Só que ele saiu pela porta detrás e eu pela da frente”. (Sim, caro leitor! Eu também tento sair pela porta da frente! Mas às vezes a vontade de quebrar uma janela é enooooorme). Condenados a morte, os assassinos viriam a ser enforcados em 1965, tendo cometido o crime em 1959. Durante todo esse tempo Capote não termina o livro, ficando a espera do resultado das inúmeras apelações feitas pelos advogados dos caras.
A impressão toda do filme é que Capote "usou" o sujeito pra escrever uma das maiores histórias da América – o livro tornou-se um sucesso absoluto, influenciando a forma de se fazer jornalismo e abalando profundamente o próprio Capote, que nunca mais conseguiria terminar nenhum livro. Mas ao mesmo tempo, esse “uso” aparece como extremamente legítimo. Deixa claro que todos nós usamos, em maior ou menor grau, as pessoas.
Na verdade, Capote se apaixona pela possibilidade de escrever um grande livro. E talvez de, com isso, ver o seu próprio reflexo. E não é isso que nós fazemos a maior parte do tempo? Apaixonamo-nos por nós mesmos através dos outros. Nosso reflexo nos olhos dos outros é às vezes mais atraente do que os próprios olhos de quem nos vê. Como Narciso, precisamos nos aproximar cada vez mais deste reflexo – e que é sempre mais belo do que somos, pois é filtrado pelas lentes dos olhos de outrem.
E a arte não é isso afinal de contas? “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. O artista finge o sentimento a tal ponto que ele mesmo não sabe o que é real. Ou, de outra forma: mesmo na dor tem a capacidade de olhar de fora para que aquilo sirva de material. Como um médico que, fascinado pela doença, esquece até mesmo do próprio paciente, ainda que o objetivo final seja a cura deste paciente.

Outro filme a que assisti essa semana foi “Match Point – Ponto final”, de Woody Allen. Bom, Woody Allen pra mim é o mestre supremo, ao lado de Tarantino. Tudo, absolutamente tudo o que ele faz me toca profundamente, pelas mais variadas razões – seja pelo seu senso de humor negro (aquele humor judeu auto-sacaneante do qual eu me sinto profundamente devedora); seja pelo humor non-sense de alguns filmes (principalmente os primeiros); seja pela forma engraçada e angustiada pela qual ele faz as principais perguntas da humanidade: qual o sentido da vida, o que é o amor, devo ou não devo trocar o carpete da sala…
Esse filme fala sobre acaso. Sorte. Em como o ser humano tem medo de admitir o quanto da sua vida é aleatório. No final das contas o que importa é: ter ou não ter sorte. Toda sua vida pode mudar num piscar de olhos em função de um pequeno detalhe. Você luta a vida inteira por uma coisa e a vida te leva pra outros lados. Isso não quer dizer que não se deve trabalhar e aproveitar as oportunidades. Apenas considerar que simplesmente não se tem o controle de tudo. Ou melhor: de quase nada. E é esse o tema das grandes tragédias gregas, outra vertente que Allen brinca em diversos filmes e neste particularmente. E se o acaso tem uma força tão peremptória e arrebatadora, pode-se objetar se ele não é apenas o seu amigo, o destino. Acaso ou destino: não se pode fugir a nenhum dos dois e pouco faz diferença em qual acreditamos.
Einstein dizia que “Deus não joga dados”, contrariando teorias que atribuíam a criação do Universo a um simples acaso. Sei não. Pra mim Deus joga dados, sim. E teorias como a do Caos que explicam a formação do Universo fazem crer que tudo não passa de uma piada na mente de Deus. E acho que isso não invalide nem desrespeite a Hipótese-Deus de maneira alguma. Somente acho que Deus tem um senso de humor meio Woody Allen.
E voltando ao início desse post, sobre momentos em que a vida parece não ter sentido…bom, ela realmente não tem sentido. Adoraria dar outra resposta. Ao mesmo tempo, se ela não tem sentido, o sentido pode ser o sentido que a gente dá. E eu me sinto muito, muito feliz, pois pela primeira vez na minha vida tudo que eu faço parece ter cada vez mais sentido. Cada vez eu esbarro mais nos meus essenciais. Saúde, amor, família, dinheiro, trabalho, amigos; tudo isso aumenta(ria) minha felicidade em maior ou menor grau. Mas são supérfluos. São acessórios. Lindos acessórios que enfeitam a vida e ajudam de forma inacreditável. Mas tento não me prender a eles, mesmo sabendo que é impossível. Aliás, tento não me prender nem mesmo a um só sentido. Viver é reinventar sentidos a todo o momento.