Ontem assisti à V de Vingança – baseado num super-herói dos quadrinhos - no cinema. O filme é choque de 220 volts. Não por trazer coisas muito novas – afinal, o que pode ser novo? Ao contrário, por trazer coisas absolutamente velhas.
Vamos ao enredo: numa Inglaterra futura, um regime totalitário de direita restringe a liberdade do cidadão comum e das demais nações com a justificativa de controlar a expansão terrorista. Algo familiar? Pois é. As semelhanças com o governo Bush não param por aí.
Neste cenário assustador, “V” é um personagem mascarado, fascinante e assustador, que luta contra o governo e é tido como terrorista. O filme também mostra a relação entre ele e Evye (Ãhn? Ãhn? Pegaram? Evye-Eva. Primeira mulher de um novo mundo).
O filme é um soco no estômago dos norte-americanos. Mostra como a perda de algumas liberdades aqui e ali, em nome de uma suposta segurança, pode custar caro. Faz com que um belo dia as pessoas achem normal existir toque de recolher e que suspeitos sejam mortos antes de interrogados. Só que um dia, o suspeito pode ser você.
Muito legal a história do próprio governo envenenar uma escola primária e forjar um ataque terrorista para, desta forma, ter o aval da população para cercear a liberdade. Alusão direta aos atentados de 11 de setembro, que, como já se sabe, não só eram do conhecimento da Casa Branca, como há quem – como o Michel Moore, por exemplo – fale sobre a ligação entre a família de Osama e Bush. O motivo? Com os atentados Bush teria uma justificativa pra invadir o Iraque e controlar o petróleo.
Interessante como o filme trabalha a questão da história como um processo – que às vezes dura 400 anos, como no filme – e não causas e conseqüências isoladas. Certas idéias, aparentemente desgastadas, podem ser revistas de tempos em tempos. Outras idéias, de tão arraigadas em nossa sociedade, parecem eternas. Aprendemos que o terrorismo e a violência devem sempre ser combatidos e que a propriedade privada é sagrada. No entanto, o governo não pensa duas vezes antes de passar a mão na nossa grana (seja como Collor fez com as nossas poupanças, seja através de impostos que deveriam servir para nossas necessidades básicas), de invadir a casa do pobre que mora na favela sem mandato e baixar o cacete. Tudo isso em nome de uma suposta liberdade. Desde que o seu dinheiro compre, é claro.
Eu me pergunto: se você precisa trabalhar para viver – e de uma forma completamente opressora - onde está o seu direito de ir e vir? Se você aprende que precisa trocar de carro anualmente, parecer o mais jovem possível, ganhar o máximo de dinheiro possível, tentar ser sempre o melhor, onde está a sua liberdade?
Aprendemos que notícia é uma coisa que aconteceu e os meios de comunicação apenas divulgam-na de forma imparcial. Mesmo que os discursos possam assumir diferentes formas e moldar significados, ou que as notícias sejam deliberadamente inventadas – como é o caso do filme – é isso que pensamos ao ler um jornal e é isso que nos ensinam nas escolas de jornalismo. Hilária a associação entre a CNN (empresa de comunicação norte-americana) e a BTN (empresa de comunicação no filme), junto com a frase do editor chefe: “quem vai duvidar de nós?”.
Na cena em que o laboratório onde são realizadas experiências genéticas em seres humanos (uma referência clara ao nazismo) pega fogo, aparece a cientista chorando, por anos de pesquisa jogado fora. Me lembrei da invasão das mulheres da Vila Campesina, do MST, ao laboratório da Aracruz, empresa responsável pelo projeto Deserto Verde. Também havia um cientista chorando pelos anos de pesquisa jogados fora.
A referência ao anarquismo é clara já no símbolo utilizado pelo herói: a forma com que ele escreve o "V" é bastante semelhante ao "A" do anarquismo (de vermelho, círculo redondo atrás). Anarquia, ao contrário do que reza o senso comum, significa, em linhas gerais, a ausência de governo e a possibilidade de uma sociedade de autogovernar. Sem políticos. O filme deixa claro que nenhum povo precisa de governo – seja ele de esquerda ou direita. Que todo poder corrompe. E que, uma vez corrompido, é cada vez mais difícil retroceder.
Fiquei pensando na idéia também explorada pelo filme de que algumas causas são mais importantes que a própria vida. Acho que ninguém em sã consciência acorda de manhã pensando: “puxa, hoje está chovendo e eu vou morrer por uma causa”. Entretanto, às vezes certos acontecimentos de cunho individual te levam a determinadas escolhas em que não há mais sentido em retroceder.
A tônica do filme é que a liberdade e a democracia são valores que estão sendo usurpados de seu real significado dia a dia, em nome da segurança de todos, mas que na verdade isso é feito em nome da ganância de alguns. E a gente vai tendo que se adaptar. E introjeta determinados valores. “É a realidade”. “É a globalização”. Aprende que política se faz com concessões e alianças, e que os fins justificam os meios – e quando menos percebe, vendeu sua alma ao diabo.
Mas algumas pessoas simplesmente dizem “não”. Ainda que elas não vejam o resultado de suas lutas, é o ato de lutar em si que importa. É este o sentido de suas vidas. O importante não é fazer que uma idéia dê certo. É simplesmente ter uma idéia. E lutar por ela. E a política se faz de várias formas, no dia a dia de cada um de nós.
Engraçado é que o Jornal Hoje, da Globo, mostrou a história de uma mulher que mora há 20 anos numa barraca em frente a Casa Branca. Ela faz protestos diários contra o uso de força nuclear, vive dos panfletos que vende na rua, não têm dentes, previdência, nem patrão. Acessa a Internet da casa de uma amiga e é muito mais informada que muita gente que tem mestrado.
No mesmo jornal, outra notícia: o Irã disse que não irá interromper seu programa de energia nuclear, contrariando a resolução da ONU (engraçado que, quando Bush contrariou a ONU pra invadir o Iraque, beleza, né?). Bush, em contrapartida, afirmou que caso o Irã não ceda, os EUA vão bombardear o país com… armas nucleares! Que eles não querem que o Irã tenha!
O que os protestos dessa mulher mudarão na História? Nada. Ela mesma diz que nenhum presidente nunca mandou ninguém falar com ela – curiosamente ela é vigiada discretamente por guardas. Mas talvez o fato dela estar ali lhe traga uma coisa que dinheiro definitivamente não compra: paz. Dignidade. E já notaram que quanto menos você tem, menos precisa? Pra algumas pessoas, isso é mais importante do que o conforto. Ou melhor: isso é o conforto. Um verdadeiro luxo ser dono da sua própria alma. Há quem não se importe com isso. Mas eu me importo. Conheço muita gente que se importa. E só não sabe o que fazer. Bom, sonhar ainda não foi proibido, né?
Nossa vida é muito pequena no curso da História. Por que uma Nova Ordem Mundial não pode ser pensada por nós – algo diferente do capitalismo e do socialismo – para que, quem sabe, daqui a muito tempo alguém possa aproveitar? Por que não podemos pelo menos pensar nisso? Pensar não adianta nada? Mas uma coisa pra acontecer tem que ser primeiro arquitetada no cérebro. E pensar é isso: arquitetar as coisas no cérebro.
Por fim (ufa!) só queria dizer pra vocês não perderem esse filme. Ele pode mudar a vida de vocês. Ou, no máximo, pode ser um alento. Nesse mundo de correr, correr, correr em nome de valores que ouvimos desde sempre, cabe a pergunta: são nossos valores mesmos?
Recomendo contra os males do mundo moderno: V de vingança.
E nas próximas eleições: V de Voto Nulo. Não que vá mudar algo. Mas eu preciso ficar em paz com minhas escolhas.